Green infrastructure for new developments
Infra-estrutura verde para novos empreendimentos e urbanizações

Lucimara Albieri de Oliveira

Entre o projeto e a realidade: o planejamento urbano e suas implicações no cotidiano da cidade

Lucimara Albieri de Oliveira

Palmas, capital do Tocantins, se destaca por possuir um plano urbanístico prévio à sua instalação com características modernistas que refletem intenção de trazer progresso para a região Centro-Norte do país. Ainda não se encontra consolidada e está longe de atingir a capacidade populacional prevista no plano. O planejamento prévio em grande escala trouxe conseqüências tanto positivas quanto negativas. No sentido positivo, o projeto macro está conseguindo manter suas diretrizes principalmente em relação à hierarquia viária. Por outro lado, isto possibilitou a ocupação de toda extensão do projeto, resultando em uma ocupação esparsa, baixa densidade populacional e grandes vazios urbanos que provocaram encarecimento da infraestrutura, incapacidade do poder público suprir as demandas da população e desumanização dos espaços urbanos. Com isso, a população se tornou demasiadamente dependente do transporte motorizado em uma cidade insustentável.

A rede de infra-estrutura verde de Palmas foi planejada para estar distribuída por toda a trama urbana, onde as APA´s ao longo dos córregos permeiam o panorama da cidade, de maneira que introduz a natureza no cotidiano de seus cidadãos. Porém, existe uma dificuldade de integração destas áreas com os percursos, onde muitas vezes os maciços verdes segregam a ocupação, dificultando a integração da malha urbana.

Complementarmente, os canteiros centrais das avenidas foram planejados para serem corredores verdes de valor ambiental e paisagístico. Porém, na implantação de Palmas, muitas espécies arbóreas originais foram arrancadas e, em seu lugar, colocadas espécies que não fazem parte do ecossistema regional. Como exemplo, na avenida principal, existe uma colunata de Palmeiras Imperiais com gramado e canteiros de flores que direcionam para a imponente Praça dos Girassóis (maior praça do país) onde está o Palácio e as Secretarias Estaduais, ressaltando a grandiosidade do cenário. Isto é completamente insustentável para o cerrado, pois, além de proporcionar pouquíssima sombra em uma região quente o ano inteiro, tem-se o período de seca que se prolonga por meses, onde é obrigatória a rega diária das plantas para que elas não morram. Existe uma tendência de mudança de mentalidade com o plantio de espécies nativas mais recentemente, além da preservação das árvores existentes na abertura de novas avenidas.

Em relação à Praça dos Girassóis, possui grande extensão impermeabilizada em pedra portuguesa e é minimamente arborizada, configurando-se como um espaço de valorização dos edifícios que ela contém, e não prioriza o uso pela população. Esta combinação faz com que as pessoas não tenham condições de caminhar pela praça durante o dia por causa da temperatura elevada, resultando em um espaço meramente contemplativo em pleno centro da cidade, onde há necessidade de espaços agradáveis de convívio e de deslocamentos a pé. Esta característica faz ressurgir o seguinte paradigma comentado anteriormente: Palmas é uma cidade desumanizada e estruturada para o transporte veicular.

O projeto urbanístico de Palmas previu uma distribuição uniforme de praças vicinais, onde cada superquadra deveria ter uma, para suprir a demanda daquela vizinhança. A intenção projetual primária era que as praças deveriam ser espaços qualificadores das superquadras interligadas à hierarquia viária, contemplando os deslocamentos de pedestres no seu interior, já que cada superquadra possui em média 700x700 metros. Porém, o parcelamento destas - que vem sendo realizado por profissionais urbanistas contratados pelos proprietários de cada área - nem sempre cumpre seus objetivos, causando distorções que prejudicam a continuidade dos espaços livres.

Um exemplo disso é a Quadra ARNE 12, projetada com uma grande ilha central com função de praça que, inicialmente, integraria os lotes e centralizaria os acontecimentos públicos, encontros sociais e momentos de lazer daquela vizinhança. Infelizmente, apenas uma intenção de desenho não é suficiente para que tais objetivos sejam alcançados. Atualmente, esta praça está abandonada, pois os carros são impossibilitados de circular ao seu redor ou atravessá-la devido ao seu traçado, e ainda os lotes - alguns com formas triangulares sem razão aparente – não estão voltados com suas frentes para as praças, e sim suas laterais muradas. A insegurança se instalou, pois a dinâmica que deveria existir foi massacrada pela falta de possibilidades de fluxos e descontinuidade visual. Analisando o trajeto dos pedestres, o equívoco do desenho se agrava e a descontinuidade física torna-se evidente, pois o fluxo que se dá no sentido Norte-Sul, passando pela praça, é interrompido nos fundos dos lotes comerciais ao Sul, forçando os pedestres a contornarem as edificações com um incremento significativo do percurso para acessarem a Avenida J.K.

Outro exemplo que surpreende, é a Quadra ARNO 44, onde as avenidas estruturadoras ao seu redor estão em posição diagonal em relação ao eixo Norte-Sul, diferentemente da maioria. Porém, o autor do projeto optou estranhamente por manter os lotes conforme o eixo Norte-Sul, gerando espaços triangulares residuais em várias extremidades, que acabam sendo destinados à área verde, além de gerar um desenho peculiar das vias locais internas em confronto com as avenidas circundantes.

Os lotes destinados ao comércio vicinal presentes em muitas superquadras residenciais estão em suas bordas voltados com as frentes para as avenidas estruturadoras e com os fundos para uma rua local. Isto tem causado um prejuízo para os moradores, pois os comerciantes não assumem o cuidado com a área pública ao fundo, ficando estes sem passeios pavimentados e cuidados com a arborização, além do acúmulo de lixo que degradam a paisagem urbana.

Portanto, procura-se neste trabalho investigar questões relativas às diretrizes de planejamento e projetos urbanísticos, apontando decisões adotadas e seus resultados práticos, considerando suas interferências no cotidiano da população.